sexta-feira, 13 de maio de 2011

A ameixa encantada



A noite passada foi linda...
Uma paciente, 42 anos, câncer em estágio terminal, fez um pedido para uma técnica de enfermagem: uma ameixa. Seus olhos brilhavam quando sussurrou : - Ameixa. Amarela, vermelha, tanto faz...
21:40, o supermercado mais próximo fechava as 22 hs.
Chamamos o segurança, ele estava sozinho, não podia deixar o seu posto. Nós também não.
A enfermeira teve uma idéia: uma familiar da paciente de outro quarto!!
Sim, foi a irmã da Dona Gema que sabendo do que se tratava se ofereceu prontamente, mas só com uma condição: não iria sozinha... não era da cidade, tinha medo...
O tempo estava passando...
Corremos para achar outra acompanhante de outra paciente!! Achamos!! A mobilização pela ameixa era a coisa mais linda que tinha visto nos últimos tempos...
Pronto! A familiar da paciente de outro quarto falou:  -Já estou indo!!! Só me dêem um minuto para calçar as botas!!
21:50.
Lá se foram as duas.
22:05. As ameixas mais esperadas da  noite chegaram a seu destino.
Vi uma menina de 42 anos comendo vorazmente a ameixa. Parecia lembrar algum momento bonito, de algum tempo que já se fora de sua vida, encontrado naquele prazeroso minuto que proporcionamos a ela.
Lindo, lindo,lindo.
Trabalhar com a morte também é encontrar o amor.

quinta-feira, 14 de abril de 2011




Essas fotos foram tiradas no Cemitério Central de Montevideo, o que achei mais interessante foi a quantidade de estátuas de maridos que perderam suas esposas e de esposas que perderam seus maridos,esse anjo é lindo e a expressão de tristeza é de uma beleza sem igual.  Ah! E as rendas...deviam demandar muito trabalho... Os artistas eram maravilhosos! Um passeio interessante!

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Uma dor pungente

Hoje foi difícil ver os olhos de uma mãe de mais de 70 anos chorando a morte da filha.




Uma dor pungente.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Quando me procuram para que eu avise a família de que alguma paciente está morrendo, torço para que ela esteja viva até os familiares chegarem. Rosa estava com 40 anos e um câncer de útero avançado, o sangramento aumentado estava consumindo com sua vida rapidamente. Percebi que não estavam dando sangue a ela e perguntei à enfermeira:  será que não seria melhor  darem sangue para ela? Só pensava nos familiares...
A enfermeira procurou na prescrição e o sangue estava prescrito. Pediu ao banco de sangue e logo em seguida a paciente recuperou um tom de vida nas faces. Conversei com uma colega sobre a impotência e a vontade de perguntar a paciente se ela não tinha algum recado para dar aos filhos, ao marido... Não é minha função. E nem ela tinha idéia de que a morte estava tão próxima. Situações destas são extremamente conflitantes e a equipe toda se sente tensa. No plantão seguinte fui logo procurar a paciente na lista: estava lá! E estava acompanhada de um filho, iria passar a noite com a mãe. Um final melhor do que eu esperava. O afeto estava lá. A morte prematura é sempre dolorida, mas a presença de amor e afeto nessa hora faz parecê-la mais digna.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

quarta-feira, 3 de novembro de 2010



Quando chegar o tempo da minha morte,

o me lamente.

o me deseje sossego.

Por favor, não diga:

– Que descanse em paz.



o estarei dormindo na rede,

mas estirado em uma cova!

o inerte... Inexistente.

Um cadáver contumaz.



o me vele, não me evoque,

o me cite em preces.

o peça por minha alma.

o chore por ter saudade,

e num lapso de caridade

esqueça-me, docemente.


o se exceda, tenha calma.

Eu já não existirei.



Quando eu me for sem ter volta

cante uma antiga cantiga de roda:

"diga um verso bem bonito

diga adeus e vá embora".


Laurene Veras

domingo, 17 de outubro de 2010

Leveza...


Semana passada duas senhoras idosas, de cabelos prateados, abordaram a enfermeira do posto do hospital:
- Nós queríamos saber como está a fulana do quarto número tal. E também gostaríamos de saber se poderíamos vê-la.
A enfermeira olhou na lista de pacientes, viu que a paciente que procuravam tinha 36 anos e que estava bem, perguntou:
-Vocês são "quem" da paciente?
-Nós somos filhas dela- responderam as idosas.
-Mas a paciente tem 36 anos, como vocês poderiam ser filhas dela?
- Ah! (Rindo) Filhas de santo!

Cada história que me contam!

Na mesma noite minha colega, ao preencher a DNV-Declaração de Nascido Vivo, perguntou para a mãe do bebê: 
-Qual a sua ocupação?
E a menina de 16 anos disse:
-Psicóloga.
Minha colega percebeu que alguma coisa estava errada:
-Mas como tu, tão jovem, podes ser psicóloga?
-Mas tu me perguntou a minha ocupação...Eu faço psicóloga toda semana!!!

Além de meus encontros com a morte, tenho muitas histórias engraçadas também para contar, histórias beeeem mais leves.

sábado, 21 de agosto de 2010

O peso de um corpo

Ontem fui ao leito de uma paciente que tinha ido a óbito, 29 anos, câncer de útero...
Quando cheguei lá, as duas funcionárias estavam com dificuldade de levantar o corpo para colocar na maca. Pensei: 
Vou ajudar.
Ajudei. Segurei no meio, elas seguraram nas pontas. O peso da morte é grande. Em todos sentidos.

domingo, 8 de agosto de 2010

sábado, 19 de junho de 2010

Saramago




- A vida é tão bonita e eu tenho tanta pena de morrer!
(Saramago citando sua avó).

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Father and daughter

Estou impressionada com tantas histórias que ouço de pais que "morreram" e continuam vivos...
Morreram pelas ausências deixadas, por agressões e negligências, pelo desrespeito e a falta de alteridade.
Tá, talvez não tiveram presença paterna, nem sabem o que é, nem como se faz... Mas quando chegamos a maturidade, e claro, muitos podem ficar idosos e nunca a alcançam, podemos descobrir como fazer muuuuitas coisas, Inclusive SER PAI. O vídeo acima "Father and Daughter" mostra o afeto de uma filha, e o afeto é tão bom!!! O afeto muda a cara, traz sorrisos, abre portas, ilumina os dias. Tem pai que não sabe aproveitar isso!!
Coitados!

segunda-feira, 10 de maio de 2010

A solidao mata

Nas noites em que ando pelo vale da morte, vejo que muitos corpos de dor
que ainda penam por aqui só recebem o abraço do desamparo , o vazio é físico, ninguem ao lado , nem nas ultimas horas onde o sopro de vida teima
em existir...
Suplicam uma presença, uma presença de vida, um motivo para respirar, para
continuar pulsando...
Algumas almas conseguem gritar o nome de seus familiares. Gritam para o
nada. Suas vozes ecoam no quarto vazio...

Lembro de uma que chamava o nome da irmã, chamei a irmã e repassei o
chamado... Não pode vir, era sozinha e tinha filhos pequenos que precisavam
da companhia. A irmã também foi embora sozinha.
 
Vejo meus colegas da enfermagem guardando essa dor da cumplicidade em lugares tão escondidos que nem eles sabem que a dor existe...
Esse ano o câncer já levou duas colegas, será a dor explicitando-se deste
saber-se perecível que insiste em ser lembrado a cada corpo que putrefe a
luz de seus olhos cansados?
 

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Amigos


Hoje vi uma paciente deitada na cama com o olhar desbotado de tanta dor...A paciente tem Câncer de colo, descobriu a doença no parto de seu bebê.Seu bebê tem alguns mesinhos e o câncer já tomou grande parte de seu abdômen...
Nos musgos da alma os olhos fitavam o nada(ninguém havia ligado naquele dia).
Uma hora após essa cena, vi a mesma paciente levantando da cama para dar uma caminhada: tinha uma amiga abraçada consigo, tinha braços novamente e pernas para levantar-se. A força veio da amigalma que veio acompanhar a paciente, dormir (ou não) na cadeira dura ao lado dela, estender-lhe a mão, somar seu tempo ao tempo que a amiga ainda tem. 
 
Durante o dia a paciente havia se queixado de dor, ameaçado se despir se não houvesse medicação forte pra aliviar aquilo tudo, aquilo tão nada, tão vazio, tão sem sentido... A amiga ficou sabendo e brincou com ela no corredor: - Ah ta... Agora quer ficar pelada? Perdeu até a vergonha?? 
E a paciente riu, riu muito...
Simples gestos podem tanto!
*foto do filme "Lado a lado"