Father and Daughter

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quarta-feira, 28 de maio de 2008



Podem morrer diversas partes de seus corpos, mas tem algumas mortes que esgotam, cansam muito mais que outras. Quando morre um pensamento ou um dia, é leve, mas quando morre o que é único, como a infância , dói e pode até paralisar, mas é necessário. Agora o que não dá pra dimensionar é quando mata gente, que não podia morrer . Nessa hora o corpo que até então está calado grita à morte: SE TE ODEIO NÃO ODEIO AQUELES PARA QUEM CONDUZES TEUS PASSOS!!!
(o trecho em letra maiúscula é de Hélinand de Froidmont- Os versos da Morte)


No último plantão morreram 2 bebês e uma senhora de 54 anos...
Mas outra cena me tocou mais do que estas mortes:
A mãe de uma adolescente de 19 anos solicitando autorização para deixar subir o pai da menina, que ela não via desde os 5 anos ...os pais haviam se separado e não tiveram mais contato. Frente a morte eminente da filha a mãe procurou por este pai para convidá-lo a reencontrar-se com sua filha e também despedir-se. Com 19 anos apenas, ela estava com câncer de ovário, um dos mais letais, e já com metástases pelo corpo... Tempo... pouco tempo!
Não costumo entrar nos quartos das pacientes, mas fiquei curiosa com o encontro... O pai veio, se aproximou da filha , chorou, rezou,abraçou... Um momento que ficará na memória destes pais... Na minha também.
Fico pensando no porquê desta separação por tanto tempo... Mas o reencontro foi feliz, como um desfecho para uma vida que está “por um fio” , como diz a mãe da paciente.
Como tenho uma filha de 17 anos, me compadeci muito desta mãe, foi mais fácil colocar-me no lugar dela... Ela estava “morta-viva”. Acho que o termo contempla bem o sofrimento de uma mãe que ama sua filha. Sim, algumas não amam ...ou ainda, não conseguem amar por sequer saberem o que é o afeto.
Desta história de hoje, guardarei sempre a lembrança da importância de uma conversa com pai, mãe, ou com quem valha a pena conversar...
Já recebi vários e-mails que dizem para aproveitarmos enquanto há vida e conversar com quem amamos. Parece romantismo? Mas é verdade.


Amanhã pode ser tarde.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Ontem uma paciente me pediu para entrar em contato com o marido dela, ela havia passado por uma mastectomia e fazia dois dias que não recebia visita de ninguém.
Liguei.
Atendeu uma voz masculina provavelmente embriagada que disse que era marido dela... Falou que não tinha como deixar as duas crianças pequenas sozinhas para ir ao hospital e que morava no interior, em uma fazenda que havia “arrendado”... Resumindo: desgraça pouca é bobagem!!
Falei com a mulher e disse que o marido não podia vir porque não tinha com quem deixar as crianças...mas que ele havia perguntado por ela...
Ela fez uma Mastectomia!!! Isso não é brincadeira. Que suporte ela terá em uma fazenda? Histórias com prognóstico um tanto complicado...

sexta-feira, 9 de maio de 2008


Lá se foi mais uma...
A Dra. Gládis era uma figura...
Doutores também morrem...e o pior: geralmente conscientes disso!
Me lembro da Dra. um dia ao meu lado, na recepção do Centro Obstétrico, fumando um cigarro (sim,fumando um cigarro!!!) ...Chega um pai e pergunta do filho que havia nascido... Na mesma hora a Dra. Gládis para e diz para o pai:
- Fui eu que atendi o teu filho!!! Tá ótimo, até pensei que era mal formado, uns olhos saltados...mas agora tô vendo que tu és igual!!!
O pai estava em choque ou não estava acreditando...
Essa era a Dra.Gládis.. também era muito divertida, viveu a vida a mil: BINGO, noitadas,além dos plantões no hospital... Descobriu um Câncer de Pâncreas e morreu em menos de 6 meses.
Sei que no primeiro dia que sentiu muita dor, tomou morfina e morreu. Não sei. Não sei mesmo se foi uma escolha. Mas enfim, o que importa é que não sofreu mais. Atualmente está na frente do hospital onde trabalhou (suas cinzas), o lugar onde ela mais viveu. Intensamente.