Father and Daughter

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quarta-feira, 26 de dezembro de 2007


Na semana passada estava escutando os gemidos de uma paciente que estava passando por uma troca de fraldas...
-Ui,aaaaaaai,nãaao,friiiio, aaai
-Calma, já vou terminar!- dizia a irmã.
-aaaaiiii , dói....friiioo
-Só mais um pouquinho...
-Vou caiiir...(gemidos)
Fiquei pensando no instinto do ser humano de auto-preservação. Esta paciente estava com um câncer terminal, o seu cheiro era pútrido, uma mistura de carnes podres com mijo, provavelmente sentia muito mais dor do que qualquer queda da cama, mas gemia com medo de cair.
Medo de que?
De morrer?
Já estava mais morta do que viva.
Hoje ouvi uma conversa entre duas funcionárias que estavam acompanhando esta paciente há mais de um mês:
-Tu lembra que a comadre dela estava aqui cuidando dela na semana passada? Pois é, ela disse que a "Fulana" havia confessado, que antes de estar doente, tinha matado 3 pessoas...
A paciente, segundo relatos, tinha cara de santa e era muito religiosa, orando para Deus iluminar todos os funcionários que a acompanhavam no hospital.
-Ela era dona de um bar de fachada , que na verdade era um lugar de tráfico de drogas... Havia matado 2 traficantes e um inocente de 15 anos... Disse para a comadre que sabia que iria pagar pelos seus crimes...
Quem diria que aquela senhora (uns 55 anos), com cara de boazinha, era uma assassina? Quem garante que isso seja verdade?
Não posso confirmar nada disso, apenas ouvi.
Hoje faleceu também sua colega de quarto, em torno de 45 anos, sem companhia de nenhum familiar, apenas uma acompanhante que recebia 30 reais por noite para cuidar dela. Mas ela nem sabia mais que estava só...

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Citações de António Lobo Antunes-escritor português

É inútil lutar contra a morte tal como é inútil lutar contra a vida.
fonte: Diário de Notícias, 30.09.2007

Não sei se morremos assim. Não sei se não ficamos cá. Não sei se Camões está morto. Mas isso não tem importância nenhuma, eu não sou importante, os livros é que são importantes.
fonte: Visão, 27.09.2007

Eu agora tinha a morte dentro de mim. E é horrível estar grávido da morte..
fonte: Visão, 27.09.2007

A morte é sempre uma puta e, a uma puta, não se pode dar confiança.
fonte: Visão, 27.09.2007

História de fé

Existem noites que se tornam mais pesadas com as histórias que perambulam meus ouvidos...
Uma paciente de 24 anos, adenocarcinoma de ovário, um câncer invasivo. Tem os braços da finura de um graveto e o abdômem muito dilatado. É um caso terminal. Injusto? Pode ser, mas o que é mais difícil de acreditar: O pai da garota, que foi assim diagnosticada há mais de um ano, proibiu o médico de fazer a cirurgia da retirada do ovário e adjacências. Deus iria salvá-la. Não adiantaram as tentativas exaustivas do médico em convencê-los (o pai e a garota).
Sem solução.
A paciente, se fosse submetida a cirurgia e mais quimioterapias, teria provavelmente a chance de prolongar a sua vida.
Hoje escuto os gemidos dela , esperando a medicação que só lhe tira a dor , mas não lhe dá nenhuma expecativa de vida.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

A morte...

Clara vai morrer... O marido consola a irmã da colega de quarto. Amanhã serei eu a precisar de consolo. Maria já está gaspeando - sinal da morte eminente. Um vago suspiro , um resto de vida.... Este resto não é mais Maria. Na verdade ela está indo desde que nasceu, mas foi há 4 meses que a morte sentou ao lado dela , tão perto que quase não se via o limite entre as duas..
Acompanhou desde o princípio, Clara estava nestas idas e vindas ao hospital há uns 6 meses. Aos poucos foi perdendo o viço, a cor, o humor, os olhos tornaram-se opacos e saltados , pareciam estar com medo. Não, nem sempre. Ás vezes o vazio do olhar era substituído por um brilho de satisfação. Quando a dor chegava, e estava chegando muitas vezes nos últimos dias, a sua expressão ficava tensa, não tinha mais forças nem para gemer. A cara da morte, ao seu lado, ficava desgraçadamente medonha. A enfermeira que não via a morte há muitos anos, também não via outra coisa senão os braços e corpos sedentos de morfina. Acabar com isso era mecanicamente rápido. Veia, morfina e aparente fim da dor.
A cara da morte continuava medonha, mas Maria parecia sorrir. A morte olhava para todos mas a maioria desviava o olhar. Cena forte demais. Imagem muito grande para uma justa moldura.
Clara dorme. O marido sai do quarto, o estômago dói e o peito está preso, apertado, um vazio cheio de angústia. A cara da morte não lhe sai da cabeça. Precisa de ar.
Ao sair de lá sentou-se em um banco da pracinha ao lado do Hospital... A morte também estava lá, estava difícil mesmo... Pensou em quantas vezes gostaria de ter falado com Clara sobre muitas coisas... Amores, dores, lugares , lembranças, do frio na barriga que sentira naquele dia na sala de aula, da Fanta Uva, pletz de menta, gargalhadas, cuba-libre, tesão, mamilos, cacetinho com patê, meia furada e chulé, filhos? Melhor não tê-los, se não os temos como sabê-los , méeeerda de despertador, raiva , filme que chorou e disfarçou... Tantas sensações e cacos de vida que tinham lhe afetado... Doía pensar nela sequer sonhando que quando ouviu na Segunda -feira , “O Haver” do Vinícius,
Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto Esse eterno levantar-se depois de cada queda Essa busca de equilíbrio no fio da navalha Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo Infantil de ter pequenas coragens.(...)

ele lembrava de uma época onde seus olhares eram outros, aparentemente mais iluminados, que quando estiveram, por vezes, face a face com a morte, tenham tentado ignorar sua presença... Ela sempre esteve lá. Sensação de ter vivido uma farsa. Se eles tivessem se aproximado um pouquinho ... Será que Clara não sofreria menos? A morte poderia ser mais familiar. Seu olhar de medo o angustiava. Um dia ela lhe desse que estava com medo, Mas eu estou aqui Cacá!! Não era esse medo...Ora medo, ora satisfação...
Na praça o menino passando com uma bicicleta azul , tinta descascada, mãe cheia de sacolas do “super”, lembrou-se de sua infância... cacaca de cachorro na areia do escorregador, suco de groselha dentro de garrafinhas plásticas, short muito sujo, areia no tênis, Falcon sem roupa , sorvete de Maria mole, formigueiro, borboletas sacrificadas para viver o ritual de um enterro... O que era a morte? Uma brincadeira de criança. Lá vem o Vinícius... A desesperada/ Do amor fratricida/a Dos homens,/ ai! dos homens/ Que matam a morte /Por medo da vida.
Naquele momento decidiu encarar a morte de perto, talvez não tão perto... Ao menos olhando pra ela. Ela até que não parecia feia. Não, era feia sim.
Propôs-lhe um desafio: Vamos escrever um dueto? Você lá e eu cá é claro...