Father and Daughter

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terça-feira, 18 de dezembro de 2007

A morte...

Clara vai morrer... O marido consola a irmã da colega de quarto. Amanhã serei eu a precisar de consolo. Maria já está gaspeando - sinal da morte eminente. Um vago suspiro , um resto de vida.... Este resto não é mais Maria. Na verdade ela está indo desde que nasceu, mas foi há 4 meses que a morte sentou ao lado dela , tão perto que quase não se via o limite entre as duas..
Acompanhou desde o princípio, Clara estava nestas idas e vindas ao hospital há uns 6 meses. Aos poucos foi perdendo o viço, a cor, o humor, os olhos tornaram-se opacos e saltados , pareciam estar com medo. Não, nem sempre. Ás vezes o vazio do olhar era substituído por um brilho de satisfação. Quando a dor chegava, e estava chegando muitas vezes nos últimos dias, a sua expressão ficava tensa, não tinha mais forças nem para gemer. A cara da morte, ao seu lado, ficava desgraçadamente medonha. A enfermeira que não via a morte há muitos anos, também não via outra coisa senão os braços e corpos sedentos de morfina. Acabar com isso era mecanicamente rápido. Veia, morfina e aparente fim da dor.
A cara da morte continuava medonha, mas Maria parecia sorrir. A morte olhava para todos mas a maioria desviava o olhar. Cena forte demais. Imagem muito grande para uma justa moldura.
Clara dorme. O marido sai do quarto, o estômago dói e o peito está preso, apertado, um vazio cheio de angústia. A cara da morte não lhe sai da cabeça. Precisa de ar.
Ao sair de lá sentou-se em um banco da pracinha ao lado do Hospital... A morte também estava lá, estava difícil mesmo... Pensou em quantas vezes gostaria de ter falado com Clara sobre muitas coisas... Amores, dores, lugares , lembranças, do frio na barriga que sentira naquele dia na sala de aula, da Fanta Uva, pletz de menta, gargalhadas, cuba-libre, tesão, mamilos, cacetinho com patê, meia furada e chulé, filhos? Melhor não tê-los, se não os temos como sabê-los , méeeerda de despertador, raiva , filme que chorou e disfarçou... Tantas sensações e cacos de vida que tinham lhe afetado... Doía pensar nela sequer sonhando que quando ouviu na Segunda -feira , “O Haver” do Vinícius,
Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto Esse eterno levantar-se depois de cada queda Essa busca de equilíbrio no fio da navalha Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo Infantil de ter pequenas coragens.(...)

ele lembrava de uma época onde seus olhares eram outros, aparentemente mais iluminados, que quando estiveram, por vezes, face a face com a morte, tenham tentado ignorar sua presença... Ela sempre esteve lá. Sensação de ter vivido uma farsa. Se eles tivessem se aproximado um pouquinho ... Será que Clara não sofreria menos? A morte poderia ser mais familiar. Seu olhar de medo o angustiava. Um dia ela lhe desse que estava com medo, Mas eu estou aqui Cacá!! Não era esse medo...Ora medo, ora satisfação...
Na praça o menino passando com uma bicicleta azul , tinta descascada, mãe cheia de sacolas do “super”, lembrou-se de sua infância... cacaca de cachorro na areia do escorregador, suco de groselha dentro de garrafinhas plásticas, short muito sujo, areia no tênis, Falcon sem roupa , sorvete de Maria mole, formigueiro, borboletas sacrificadas para viver o ritual de um enterro... O que era a morte? Uma brincadeira de criança. Lá vem o Vinícius... A desesperada/ Do amor fratricida/a Dos homens,/ ai! dos homens/ Que matam a morte /Por medo da vida.
Naquele momento decidiu encarar a morte de perto, talvez não tão perto... Ao menos olhando pra ela. Ela até que não parecia feia. Não, era feia sim.
Propôs-lhe um desafio: Vamos escrever um dueto? Você lá e eu cá é claro...

4 comentários:

sauvage27 disse...

Ciao Janete... puoi fare quello che vuoi ... il mio blog è tuo ... , ... per leggere i tuoi póst io devo prima tradurre in inglese E poi in portoghese ..., ... un abbraccio anche a te ... , ... Merry Christmas ..... Loris (Udine - Italy)...

Olá ... Você pode fazer o que quiser ... Meu blog é sua ... ... Para ler suas postagens I primeiro deve traduzir - se em Inglês e, em seguida, em Português ... ... Um abraço ... ... ..... Loris Merry Christmas ...

sauvage27 disse...

Copio anche io il tuo link e lo posto tra i miei preferiti... , ..Ciao Loris...

Copio I your link and place it among my favorites ... , Loris .. Hello ...

Copio I seu link e colocá - lo entre os meus favoritos ... , Loris .. Olá ...

lucestelle disse...

Felice Natale anche a te e alla tua famiglia...sono amica di Loris (Sauvage27)....mi chiamo Stefania

Régis Antônio Coimbra disse...

Ainda mais pobre Clara... se , além de morrer, tivesse também de ser autêntica todas as vezes cuja graça era justamente a frivolidade ou leveza da vida, do estar junto, das ilusões etc. Tudo bem... poderia se questionar uma ou outra vez... na agonia de um parente ou amigo, ou enterro do cadáver desses. Mas não dá para viver autenticamente como o "ser para a morte", como dizia (em alemão) o Heidegger...

Dito de outra forma: os momentos fantásticos que desperdiçamos são uma ilusão importante. Se durante esses se for "discutir a relação" ou, pior, a condição humana... Não se pode disperdiçar as ilusões nem desvalorizar os momentos de alegre inconsequência que se vinga só ou apenas mais ou menos acompanhado.